Abra seu armário e veja quantos pares de sapato você tem. Faça o mesmo nos armários da sala e da cozinha e veja quantas coisas estão guardadas, quantas você usou no ultimo mês, no último ano e na última década. Tem gente que ganhou presente de casamento há 30 anos que até hoje está na caixa. Muitos ainda têm o cartão do presente.

Tenho visto isso muito de perto porque tenho uma lojinha de coisas usadas e recebo lá copos com selo (que foram das bodas), roupas com etiquetas, sapatos com a sola intocável. E junto disso, as narrativas assustadoras de pessoas que confessam que têm 300 pares de sapatos, 1000 vidrinhos de esmalte e por aí vai.

O colecionismo é uma coisa que sempre existiu, é fetiche para muita gente e tem até um caráter lúdico, interessante, que apaixona as pessoas. Quem nunca colecionou figurinhas, bonecas de papel, papéis de carta, carrinhos, carteiras de cigarro?

Falo aqui não do colecionismo, mas do acúmulo desembestado de coisas que acabam se tornando inúteis. O que isso significa? Será que é ‘normal’? Bem, a palavra normal é bem antipática e até preconceituosa, mas permito-me usá-la aqui para falar sobre este tema: nossos excessos, nossa mania de guardar, de ter, de acumular, de ter, ter e ter.

Não sou estudiosa nem teórica do assunto, mas tenho vivido pessoalmente essa experiência de me desapegar e digo: dá uma ótima sensação. Incrível, mas é como se nos libertasse de alguma coisa invisível que a gente nem sabia que estava nos prendendo.

Sugiro que todo mundo que está me lendo faça uma experiência dessa: abra o armário, filtre minimamente o que não está em uso há algum tempo (cada um terá o seu, claro) e desapegue: pode doar, vender… não importa. O bacana é abrir espaço em casa. Se for difícil, faça devagar, vá experimentando, veja como se sente. Isso é um importante exercício para o autoconhecimento.

Nessa hora do desapego, a gente vai colocando pra fora do armário muitos de nossos valores, sentimentos, memórias, princípios. Pode crer, isso funciona.

Uma das coisas que experimentei foi uma espécie de dó: – ah, mas eu ganhei isso com tanto carinho, gosto tanto da pessoa que me deu! Só que, por outro lado, a gente vai percebendo que o carinho, o ato do presentear continuará vivo, ele nunca mais morrerá. Ele não vai embora com o objeto.

E tem outra coisa: o ato de doar ou vender um objeto que não usamos mais fará certamente a alegria de alguém que possa estar precisando de verdade daquilo. Não deixe que as coisas atrofiem em casa por falta de uso. Use tudo o que tem. O que estiver fora disso, passe adiante.

Energias se renovam, presentear alguém com algo que era seu também traz uma alegria imensa, enfim, só tem coisa boa nessa história de desapegar. Sugiro que quem tem Netflix assista ao documentário Minimalism. Eu adorei e acho que você também pode curtir.

Célia Rennó
Jornalista, autora de 4 títulos da coleção Ludo Ludens, da Editora do Brasil, e gosta de pensar, falar e escrever sobre o comportamento humano e suas idiossincrasias. Trabalha com Educomunicação há alguns anos e nunca se aquieta. Está sempre inventando um jeito de se comunicar!

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA