Não existe uma só pessoa no mundo que nunca sofreu. Quem está vivo sofre, sofreu e sofrerá. Isso são favas contadas, como diria minha mãe. O que pode mudar as coisas é como encarar o inevitável sofrimento. Se com mais ou menos dor. E até sem nenhuma dor. É possível.

Quando percebemos que o sofrimento é útil, importante, tem significados e propósitos – mesmo que não conscientes – podemos sofrer sem sentir dor. Sofrer com esperança de que aquilo passa e de que servirá pra nos ensinar alguma coisa enquanto estivermos aqui na estação Terra.

Mas nós podemos dar uma auto ajudinha quando o sofrimento chega perto. Às vezes, ele nos agarra e cisma de não querer soltar de jeito nenhum. Mas, pensemos sobre ele: quando temos um sofrimento de amor, por exemplo, alguém que nos deixou e estamos naquele estado de dar dó. É muito comum que, além de sofrer pela perda, a gente sofra também porque imagina o futuro sem a pessoa, se angustia de pensar quem foi que errou, sofre de arrependimento de não ter feito isso e aquilo ou justamente por ter feito alguma coisa.

Sofremos pela culpa, sofremos de imaginar como é que vamos enfrentar aquele amor se o virmos com outra pessoa, como será ela, ativamos o botão da ansiedade pra tentar imaginar o futuro. Daí, no fim das contas, estamos sofrendo pra caramba, pela perda e por tudo o que vamos colocando no pacote.

As crianças não são assim: abrem a boca porque o amigo lhe tirou o pirulito da boca, mas não ficam pensando se ele fez isso porque se sente superior, como será o amanhã, se ele não merecia o pirulito, se ele vai conseguir outro, pensando em “por que eu?”, “que mundo injusto!”, “será que eu mereço?”. Nada disso. A criançada não é boba. Abre o berreiro só e somente só porque quer o pirulito de volta. E já é o bastante pra sofrer, não precisa agregar mais valores ao pacote sofredor, ele já tem peso suficiente pra judiar da gente.

E olha, digo por experiência própria, dá pra ser diferente. Na hora que o sofrimento bate com força na porta, não pergunte quem é. Deixe ele entrar, chore bastante, fique de molho na cama, ouça músicas de fossa, veja filmes de arrebentar o coração, chore, chore, chore. Ligue pros amigos dizendo que você está muito mal, que está sofrendo pra caramba, que está doendo demais da conta igual ao nervo trigêmeo.

Você vai ver. Vai esgotar o sofrimento em menos tempo do que imagina. Fique assim por dois dias. Não mais que isso. Permita-se sofrer, mas sabendo que vai ter fim. No terceiro dia, comece a pensar: destrinche tudo, disseque todos os sentimentos que tentaram vir juntos e vá achando saídas para cada um deles.

– Bem, e se eu vir meu amor com outro (a)? O que isso significa pra mim?
– E como vou passar o Natal sem ela (e)? E o que isso significa pra mim?

E por aí vai, desconstruindo aquele que, inicialmente, pareceu um monstro terrível de sete cabeças. E, ao cair na tentação de querer misturar tudo de novo – mágoa, ressentimento, ciúme, ansiedade, arrependimento, previsões de futuro – pra recair no sofrimento desesperado, respire fundo, medite, ore, pense numa coisa linda e recomece a separar as coisas. Se for preciso mais um dia pra chorar de novo igual criança, não passe vontade, abra o bocão, chore com gosto, buáááááááá!!!!!!!

Em tempo: assisti ao filme francês, “Nenete, a meia-irmã”, tem no Netflix. Recomendo pra todo mundo que queira saber como é chorar rasgado, sem vergonha de sofrer. Aliás, foi esse filme que me fez pensar assim, como é bom rir e chorar feito criança.

Célia Rennó
Jornalista, autora de 4 títulos da coleção Ludo Ludens, da Editora do Brasil, e gosta de pensar, falar e escrever sobre o comportamento humano e suas idiossincrasias. Trabalha com Educomunicação há alguns anos e nunca se aquieta. Está sempre inventando um jeito de se comunicar!

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