Alguma coisa deu errado, muito errado. Ando muito incomodada com a falta de tempo em que a grande maioria das pessoas vive hoje em dia. E é claro que me incluo nessa grande maioria. Meu incômodo, pelo menos, tem servido pra alguma coisa. Estou inquieta, querendo achar saída para ter mais tempo de viver. E quando isso acontece, costumo mudar alguma coisa, repensar.

E por falar em pensar, é justamente nisso que ando pensando: por que tanta falta de tempo se a indústria nos facilita a vida justamente para termos mais tempo? Não tem nada de novo nisso, mas criaram a máquina que lava a nossa roupa e a louça, o secador que seca o cabelo rapidinho, a fralda descartável que nos economiza o tempo de lavar no velho tanque, o micro-ondas que aquece num piscar de olhos… Isso porque estou me atendo apenas às velhas novidades.

Mas, todo dia tem alguma coisa sendo fabricada e nos apresentada para facilitar a vida, produzindo mais em menos tempo para que nós possamos … o quê? Passear mais, ler mais, ficar mais tempo à toa, conversar com a família, brincar com a criança, ler o jornal pro vovô? Bem que podia ser para isso, mas não é. É tempo para cultivar mais necessidades que fazem com que a gente corra mais, trabalhe mais para ganhar mais para comprar mais aquilo que a gente nem sabia que um dia iria ‘precisar’.

Acho que isso não tem mais volta. Seria romântico demais pensar que um dia poderemos ficar livres da escravidão a que fomos submetidos. Seria possível nos desamarrar do consumo, da satisfação dos desejos implantados, do padrão que todo mundo quer alcançar com o carro, o celular, a roupa, o cabelo, o sapato, o corpo, a bolsa, a casa, a viagem para postar no Facebook e tantos outros?

Creio que não, mas dá para reduzir danos. Um dia de cada vez, uma coisinha a cada repensada, dá para ir quebrando elo a elo dessa corrente que nos prende.

Que tal começar pela alimentação? Dia desses uma nutricionista falou que, ao ir ao supermercado, só devemos levar aquilo que nossa bisavó consumia. Barra de cereal? Não. Peito de peru embutido? Não. Leite de caixinha? Não. Gelatina? Nem pensar!!!! A bisa levava pra casa batatas, arroz, feijão, couve, ovos, carne (para quem ainda consome), peixes, bananas. Comida. Só comida e nada mais. O que está ensacado e fica um ano na prateleira é qualquer coisa menos comida.

Dá tempo de cozinhar as batatas ou é mais fácil levar aquelas ensacadinhas, já fritas, cortadas em modo extrafino? Ah, não dá tempo, o negócio tá corrido, precisamos trabalhar mais para ganhar mais para comprar mais batatas ensacadas.

Alguma coisa está muito errada!

Célia Rennó
Jornalista, autora de 4 títulos da coleção Ludo Ludens, da Editora do Brasil, e gosta de pensar, falar e escrever sobre o comportamento humano e suas idiossincrasias. Trabalha com Educomunicação há alguns anos e nunca se aquieta. Está sempre inventando um jeito de se comunicar!

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