Um som diferente surgiu no país no final dos anos 50. Nos bares, apartamentos da classe média e nas faculdades cariocas uma geração de músicos, compositores e cantores jovens criaram um gênero musical inovador que percorreria o mundo e influenciaria a música feita nas décadas que se seguiriam. Era a Bossa Nova, música derivada do samba e com influência do jazz.

A palavra bossa apareceu pela primeira vez no samba de Noel Rosa “São Coisas Nossas”, composto em 1932. Ele diz: “O samba, a prontidão e outras bossas, são coisas nossas!”. Os sambas de breque que surgiram na década de 40 também eram conhecidos pela expressão “bossa nova”.

Um encontro entre o impressionismo erudito de Debussy e Ravel, o jazz norte-americano e o samba, a partir da Segunda Grande Guerra, foi fundamental para o surgimento da Bossa Nova. Também o canto suave e minimalista Dick Farney e Lúcio Alves. Ambos soltaram o as notas primordiais do novo ritmo ao gravar Tereza da Praia, de Antonio Carlos Jobim e Billy Blanco, em 1954.

O Lúcio!
Arranjei um novo amor no Leblon
Que corpo bonito, que pele morena
Que amor de pequena, amar é tão bom!”

Estes primeiros sinais de que a música brasileira abria um novo caminho também foram percebidos por artistas como Luiz Bonfá e Johnny Alf. Em 1955, Tom e Bonfá trabalham com Vinícius de Moraes na composição das músicas peça teatral “Orfeu da Conceição”, uma das primeiras a ter um elenco formado em sua maioria por atores negros. Entre as músicas apresentadas na peça estava “Se todos fossem iguais a você”, composição que se afastava das regras do samba canção, do bolero e do samba tradicional, reinantes naquele período. As músicas da peça seriam lançadas em um LP no ano seguinte.

“Vai tua vida
Teu caminho é de paz e amor
A tua vida
É uma linda canção de amor…”

Outro embrião do movimento foram os encontros de músicos da classe média carioca em apartamentos da zona sul, como os que aconteciam no da família de Nara Leão, na Avenida Atlântica, em Copacabana. Em encontros frequentes a partir de 1957, aquela turma de jovens se reunia para fazer e ouvir música. Entre eles estavam Billy Blanco, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Sérgio Ricardo, Chico Feitosa, João Gilberto, Luiz Carlos Vinhas, Ronaldo Bôscoli, Luiz Eça, entre outros.

Copacabana, 1957

Em uma apresentação no Colégio Israelita-Brasileiro, surgiu a ideia de batizar o novo gênero de Bossa Nova quando um recado foi escrito em um quadro-negro. Ele anunciava a apresentação de samba-sessions por uma turma “bossa-nova” que incluia Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Sylvia Telles, Roberto Menescal e Luiz Eça.

Em 1958, a cantora Elizeth Cardoso lança o LP “Canção do Amor Demais” com novas parcerias de Vinícius e Tom e arranjos de violão de João Gilberto. O disco teve uma edição limitada e não chegou a causar muito alvoroço, mas é considerado o marco oficial da Bossa Nova.

Rua Nascimento e Silva, 107. Você ensinando pra Elizeth as canções de Canção do Amor Demais…”

Logo a seguir, foi a vez de João Gilberto lançar o compacto “Chega de Saudade”, que ganharia corpo no ano seguinte em LP. Era a baforada de oxigênio que faltava para dar vida ao novo estilo musical. A partir daí o novo ritmo toma espaço nas vitrolas das salas de visita, os bares e boates cariocas e dos concertos universitários. Uma rua sem saída em Copacabana, o Beco das Garrafas, se tornou o centro geográfico do movimento.

“Vai minha tristeza
E diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Beco das Garrafas, Copacabana

Outros artistas abraçaram e inovaram o novo estilo: Dolores Duran, Maisa, Baden Powell, Alaíde Costa, Astrud Gilberto, Wilson Simonal, os irmãos Paulo Sérgio e Marcos Valle, Dori e Nana Caymmi, Doris Monteiro, Edu Lobo, Francis Hime, Sérgio Mendes, Leny Andrade, Pery Ribeiro e João Donato. E até mesmo as atrizes Norma Bengell e Odette Lara e o dançarino norte-americano Lennie Dale, além de inúmeros trios e quartetos instrumentais que exploraram com criatividade a linhas melódicas da Bossa Nova.

“Você partiu e me deixou
Não sei viver sem seu olhar
O que sonhei só me lembrou
Nossos escontros no Nick Bar”

O sucesso crescente da Bossa Nova teve seu ápice em 1962 quando foi organizado o First Bossa Nova Concert, no Carnegie Hall, em Nova York e ele acaba entrando no repertório de cantores e músicos extrangeiros como Stan Getz, Sarah Vaughan, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e John Coltrane.

O fim cronólógico da Bossa Nova aconteceu em 1965, no I Festival de Música Popular Brasileira, realizado pela extinta TV Excelsior. E um dos pais do gênero foi o responsável pelo, digamos assim, seu fim. A música “Arrastão”, defendida por Elis Regina, ganha o festival e marca o nascimento da MPB, que reuniria as diversas tendências musicais brasileiras nas duas décadas seguintes. O autor da música, junto com Edu Lobo, era ninguém menos do que Vinícius de Moraes. Mas a Bossa ova nunca morreu. Volta e meia aparece alguém se debruçando sobre a sua riqueza melódica e reavivando seu espírito.

LPs de Bossa Nova do Selo Elenco

“Eu, você, nós dois
juntinhos deste bar à meia luz
e uma grande lua saiu do mar
perece que este bar já vai fechar”

Para saber mais sobre a Bossa Nova, uma das referências sobre o tema é o livro Chega de
Saudade, de Ruy Castro.

Ronaldo Cooper
Nasceu em Porto Alegre, é jornalista, roteirista, fotógrafo e editor do blog VisualZine.
visualzine.blogspot.com.br

 

 

 

 

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