“As palavras apenas evocam as coisas. É aí, que entra a dança.”

Antes de falar, o homem dançou.
Imagine humanos reunidos em torno de uma fogueira após uma caça bem sucedida, há milhões de anos. Em certo momento, um sentimento coletivo de euforia toma conta do grupo e logo inicia uma celebração composta de batidas de pés, mãos e uma exibição de gestos. Assim poderia ter sido a origem da dança.

Aos poucos, na tentativa buscar compreender e se conectar com as forças da natureza, a dança se transformou em cerimônia e esteve profundamente ligada ao surgimento da religiosidade. Na antiguidade, as primeiras civilizações transformaram a dança em uma das três principais artes cênicas da antiguidade, ao lado da música e do teatro, que traduzem visões do mundo, sentimentos e vivências.

“Eu não estou interessada em saber como as pessoas se movem, eu estou interessada no que as faz mover.”

Na dança contemporânea, a alemã Pina Bausch foi uma das mais influentes coreógrafas, rompendo com as formas tradicionais da dança-teatro, mostrando ações paralelas, contraposições estéticas, repetições propositais e uma linguagem corporal incomum.

Philippine Bausch, foi dançarina, pedagoga de dança, coreógrafa e diretora da Tanztheater Wuppertal e através da dança ela contou histórias baseadas nas experiências de vida dos bailarinos, coreografadas conjuntamente.

Cerca de oito anos atrás, o diretor de cinema Win Wenders iniciou os planos de documentar o trabalho de Pina, mas infelizmente ela faleceu antes do início das filmagens. Wenders decidiu dar continuidade ao projeto e para isso contou com a colaboração da equipe e dos bailarinos que trabalhavam com Pina. O resultado é um filme emocionante e belo que explora a criatividade da artista que transformou movimentos e gestos cotidianos, vivências e sentimentos em dança.

Lançado no Festival de Berlim de 2011, o documentário “Pina”, mostrou como o 3D pode ser um recurso excepcional também para filmes de arte. No caso, foi a ferramenta ideal para dar uma textura original às coreografias. Com isso, o filme foi indicado ao Oscar de documentário em 2012.

“Pina” mostra algumas das coreografias mais impactantes da artista, recriadas no palco, na rua, em um parque, em um pavilhão envidraçado e até mesmo a bordo do monotrilho suspenso que cruza as ruas de Wuppertal. E aí que surge a marca de Win Wenders, a capacidade de criar cenas que se transformam em imagens icônicas acompanhadas por uma trilha sonora de alta qualidade.

O filme registra fragmentos de coreografias como “A Sagração da Primavera”, sob a música de Igor Stravinsky, com o palco coberto de terra, onde interagem dois grupos, um masculino e outro feminino. “Café Mueller”, com música de Henry Purcell, mostra bailarinos com os olhos fechados em um cenário cheio de cadeiras. “Kontakhof”, uma das mais famosas obras da coreógrafa, reúne bailarinos de diversas idades. “Vollmond”, se desenvolve em torno da queda d’água sobre uma enorme pedra, com bailarinos brincando alegremente. Há também diversos solos, inclusive  um criado para a “O Leãozinho”, de Caetano Veloso. Cada coreografia é antecipada por depoimentos, lembranças e homenagens emocionadas dos bailarinos. Alguns ficam apenas em silêncio, olhando a câmera. Seus sentimentos estão na dança criada por Pina.

“Dance, dance, senão estamos perdidos.”

Assista o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=cXpFD7gi8R0

E se você se apaixonar pelo trabalho de Pina Bausch depois de ver o documentário de Win Wenders, tem mais uma oportunidade de conhecer o processo de criação da artista com outro documentário. “Sonhos em Movimento” mostra a remontagem da coreografia, “Kontakthof” com jovens estudantes.

Trinta anos após a estreia de uma de suas criações mais celebradas, Pina Bausch decidiu remontar o número com um elenco formado por adolescentes sem nenhuma experiência anterior em dança. A experiência fascinante foi acompanhada, ao longo de um ano, no documentário dos diretores Anne Linsel e Rainer Hoffman – que registraram também as últimas imagens filmadas de Pina, que morreu em junho de 2009.

Assista o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=4Vy8EQFr430

Dica: Os canais de tv por assinatura Curta e Arte 1 apresentam com certa frequencia os dois documentários.

Ronaldo Cooper
Nasceu em Porto Alegre, é jornalista, roteirista, fotógrafo e editor do blog VisualZine.
visualzine.blogspot.com.br

 

 

 

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