Cacilda Becker – Entre Quatro Paredes – TBC – 1950 (Detalhe)

A partir da década de 40, o teatro brasileiro viveu um período inovador e fértil. Uma classe média crescente, mais aberta e instruída, combinada com a chegada de artistas estrangeiros refugiados da guerra, foram os motores da renovação dinâmica que as artes precisavam para se livrar de provincianismos.
Uma figura fundamental naquele momento foi o imigrante alemão Alfred Kleemann, que documentou as personagens de importantes produções do teatro moderno brasileiro.

Fredi Kleemann

A família Kleemann fugiu da perseguição aos judeus na Alemanha e chegou ao Brasil em 1933. Em 1949,o jovem  Fredi era ator e fotógrafo amador, trabalhava na loja Fotótica e fazia parte do Foto Cine –Clube Bandeirantes. Entre seus amigos estava o ator Marcos Jourdan.
Por sugestão desse também ator em início de carreira, Fredi começou a fotografar os atores do TBC- Teatro Brasileiro de Comédia, criado no ano anterior. Logo, recebeu o convite da atriz Cacilda Becker para entrar para a companhia teatral e foi dessa forma que a memória e a alma de uma fase marcante da cultura brasileira começou a ganhar registro. Fredi estreou como ator na peça Nick Bar… Álcool, Brinquedos, Ambições, de William Saroyan, com direção de Adolfo Celi.

Waldemar Wey e Sérgio Cardoso – O Mentiroso – TBC – 1949
Paulo Autran – Antígone – TBC – 1952

Ao registrar em fotos a peça O Mentiroso, de Carlo Goldoni, em 1951, Fredi é contratado por Franco Zampari como fotógrafo oficial do TBC e da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, responsável pelos stills de divulgação de peças e filmes. Ele montava sua Rolleiflex sobre um tripé e registrava um ensaio do espetáculo encenado antes de cada estreia.

Tônia Carreiro – Appassionata – Cia. Cinematográfica Vera Cruz – 1952
Eugênio Kusnet – Convite ao Baile – TBC – 1951
Cacilda Becker – Pega Fogo – TBC – 1950

Abstraíndo o ator, o foco central em suas fotos passou a ser a personagem. Em gestos congelados a seu pedido, usou cenários, maquilagem, figurinos e luz de cena para traduzir os dramas, loucuras e alegrias que ela pretendia contidas em centenas de interpretações experimentadas pelos atores a partir de textos nacionais e estrangeiros.

Elizabeth Henreid e Waldemar Wey – A Importância de Ser Prudente – TBC – 1950
Sérgio Cardoso – Um Pedido de Casamento – TBC – 1950
Xandó Batista, Cleyde Yáconis, Ruy Affonso, Elizabeth Henreid, Maurício Barroso, Wldemar Wey, Wanda Primo, Leonardo Villar, Maria Lúcia e Maria Augusta – Seis Personagens à Procura de um Autor – TBC – 1951

Quando o TBC começou a viver aqueles que seriam os seus derradeiros anos de atividade e prestígio, no final da década de 50, Fredi acompanhou Cacilda Becker em um novo projeto. Com Ziembinski, Cleyde Yáconis e Walmor Chagas, essa grande atriz, ícone daquele período, monta a própria companhia.

Ziembinski – Divórcio para Três – TBC – 1953
Ruth de Souza – 1953

Fredi Kleemann teve então a oportunidade de retratar a segunda fase da renovação do teatro brasileiro que mostrava textos mais cotidianos e realistas. Ele passou a fotografar as produções do Teatro Cacilda Becker e espetáculos com outras iniciativas como Morte e Vida Severina, Os Inimigos, O Rei da Vela, O Milagre de Annie Sullivan e Missa Leiga.

Dercy Gonçalves – 1967
Kleber Macedo – Morte e Vida Severina – Teatro Experimental Cacilda Becker – 1960
Dina Sfat – O Rei da Vela – Teatro Oficina – 1967

Fredi Kleemann viveu o teatro como ator, diretor e fotógrafo e em 25 anos de atividade, entre 1949 e 1973, participou de 66 produções teatrais e produziu mais de 12 mil negativos. Seu trabalho fotográfico foi premiado em salões internacionais de fotografia de São Paulo, Buenos Aires, Nova York, Montreal e Paris e hoje possibilita a compreensão da estética teatral desenvolvida no Brasil durante três décadas.

Lélia Abramo – Vereda da Salvação (ensaio) – TBC – 1964
Beatriz Segall – Os Inimigos – Teatro Oficina – 1966

Seu último trabalho fotográfico foram as imagens da peça Hoje É Dia de Rock, de José Vicente, estrelada por Raul Cortez. Ele faleceu aos 47 anos de idade, vítima de colapso cardíaco, em 1974. Dois anos depois de sua morte, por influência da atriz Cleyde Yáconis é feita a aquisição do acervo do artista, hoje é conservado pela Divisão de Pesquisas do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e aberto ao público para pesquisa.

Raul Cortez – Hoje é Dia de Rock – 1973

A fotografia desse alemão imigrado, nos dá uma ideia da evolução do teatro no país e como foi eram marcantes as personagens vividas por atores como Cacilda Becker, Cleyde Yákonis, Paulo Autran, Tônia Carreiro, Walmor Chagas, Sérgio Cardoso, Nydia Lícia, Ítalo Rossi, Jô Soares, Maria Della Costa, Ziembisnski , Raul Cortez, entre tantos outros.

Cacilda Becker – A Dama das Camélias – TBC – 1951

Fontes de pesquisa:

FREDI Kleemann. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa291/fredi-kleemann>. Acesso em: 18 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

Álbum: Fredi Kleemann – Foto em Cena – Tânia Marcondes e Maria Thereza Vargas – Secretaria Municipal de Cultura, 1991

Ronaldo Cooper
Nasceu em Porto Alegre, é jornalista, roteirista, fotógrafo e editor do blog VisualZine.
visualzine.blogspot.com.br

 

 

 

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