Se alguém quer matar-me de amor
Que me mate no Estácio
Bem no compasso, bem junto ao passo
Do passista da escola de samba
Do Largo do Estácio

Por esses dias, passei por um boteco perto da minha casa que, sob o meu ponto de vista, invariavelmente toca músicas de gosto meio duvidoso. Para minha surpresa, dele saiam os acordes iniciais de “Estácio, Holly Estácio”, de Luiz Melodia. Sempre irresistíveis quando a questão é cantarolar.

O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço
Trago, não traço, faço, não caço
O amor da morena maldita do Largo do Estácio

Pensei entre risos: “Ainda há esperança na humanidade”. Mas poucos passos depois, sabendo que o artista enfrentava um câncer agressivo, me dei conta o fato inédito acontecia porque o havíamos perdido.

Fico manso, amanso a dor
Holliday é um dia de paz
Solto o ódio, mato o amor
Holliday eu já não penso mais

A música brasileira revelou uma quantidade considerável de artistas e grupos geniais nos primeiros anos da década de 70. Eles mantiveram viva a criatividade e liberdade sonora e poética que marcou a década anterior, promovendo uma segunda e não menos animada renovação musical. Entre nomes como João Bosco, Novos Baianos, Alceu Valença, Secos e Molhados, Raul Seixas e Belchior surgiu Luiz Melodia.

Filho do sambista e compositor Oswaldo Melodia, o artista cresceu ouvindo samba, choro, bossa nova, rock, blues, soul no Morro de São Carlos, no bairro do Estácio de Sá, o verdadeiro berço do samba carioca. Luiz Melodia juntou todas estas influências para definir seu estilo inovador e compor algumas das mais belas músicas brasileiras nas quatro décadas seguintes.

A estreia acontece com o LP Pérola Negra

Os poetas e letristas Wally Salomão e Torquato Neto foram os primeiros a prestar atenção ao trabalho de Luiz Melodia. Torquato divulgou em sua coluna “Geléia Geral”, publicada no jornal “Última Hora”, a arte impactante do “negro magrinho com composições interessantes, do morro do São Carlos”. Não demorou muito para Gal Costa conhecer aquele que seria um de seus compositores prediletos, resultando na gravação de “Pérola negra” no disco “Gal a todo vapor” de 1972. Pouco depois era vez de “Estácio, Holly Estácio”, ganhar sua interpretação na voz de Maria Bethânia. Dá para imaginar o impacto que Melodia cousou nas duas cantoras.

Tente passar pelo que estou passando
Tente apagar este teu novo engano
Tente me amar pois estou te amando
Baby, te amo, nem sei se te amo

Tente usar a roupa que eu estou usando
Tente esquecer em que ano estamos
Arranje algum sangue, escreva num pano
Pérola Negra, te amo, te amo

Rasgue a camisa, enxugue meu pranto
Como prova de amor mostre teu novo canto
Escreva num quadro em palavras gigantes
Pérola Negra, te amo, te amo

Tente entender tudo mais sobre o sexo
Peça meu livro querendo eu te empresto
Se inteire da coisa sem haver engano

Baby, te amo, nem sei se te amo
Baby, te amo, nem sei se te amo
Baby, te amo, nem sei se te amo

No ano seguinte, o artista lança seu primeiro LP, o icônico e antológico Pérola Negra que composições como “Magrelinha”, “Estácio, Holly Estácio”, “Vale Quanto Pesa”, “Estácio, Eu e Você” e “Farrapo Humano”. Me lembro de mim, aos 11 anos, cantando distraído com o mundo algumas dessas músicas.

Vamos passear na praça
Enquanto o lobo não vem
Enquanto sou de ninguém
Enquanto quero te ver

Vamos passear na praça
Enquanto sou de você
Enquanto quero sofrer
Curtindo dessa donzela, donzela

Hoje o tempo está mais firme
Abre mais meu apetite
Cura e seca minha bronquite
Algumas folhas de hortelã

Vamos circular a praça
Prenda bem esse cansaço
‘Inda vou passar no Estácio
O Estácio pode me querer

Vamos passear na praça
Enquanto o lobo não vem
Enquanto sou de ninguém
Enquanto quero te ver

Vamos passear na praça
Enquanto sou de você
Enquanto quero sofrer
Curtindo dessa donzela, donzela

Hoje o tempo está mais firme
Abre mais meu apetite
Cura e seca minha bronquite
Algumas folhas de hortelã

Vamos circular a praça
Prenda bem esse cansaço
‘Inda vou passar no Estácio
O Estácio pode lhe querer

Eu posso querer você
Nós dois podemos lhe querer
O Estácio, eu e você

Apresentando Ébano no Festival Abertura

Em 75, no Festival Abertura, competição musical da Rede Globo, Luiz Melodia consegue chegar à final com a canção “Ébano”, afirmando com dignidade sua negritude.

Meu nome é ébano
Venho te felicitar sua atitude
Espero te encontrar com mais saúde
Me chamam ébano
O novo peregrino sábio dos enganos
Seu ato dura pouco tempo se tragando

Eu grito ébano
O couro que me cobre a carne
Não tem planos
A sombra da neurose te persegue
Há quantos anos

Do Rio de Janeiro estou te sacando
Do centro da cidade vou te assemelhando
No núcleo do seu crânio
Eu nós três manchando
Quem é quente te amando
Quem sou eu passando
Quem sou eu ficando nu

Com o segundo LP, “Maravilhas Contemporâneas”, lançado em 1976, o país teve a certeza que iria deliciar seus ouvidos com a boa música de mais um compositor de mão. O disco trazia composições marcantes como “Juventude Transviada”, que marcou a trilha sonora da novela “Pecado Capital”, “Memórias Modestas”, “Questão de Posse” e “Amor”.

Lava roupa todo dia, que agonia
Na quebrada da soleira, que chovia
Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada
Uma mulher não deve vacilar

Eu entendo a juventude transviada
E o auxílio luxuoso de um pandeiro
Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada
Uma mulher não deve vacilar

Cada cara representa uma mentira
Nascimento, vida e morte, quem diria
Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada
Uma mulher não deve vacilar

Hoje pode transformar, e o que diria a juventude
Um dia você vai chorar, vejo clara as fantasia
s

Nas décadas seguintes Luiz Melodia lançaria mais 14 trabalhos, sempre mantendo um alto nível em suas letras e músicas. Sua partida precoce vai nos privar de outras maravilhas musicais, mas como a obra de um grande artista sempre permanece viva, podemos parar e ouvir com carinho o que o poeta do Estácio nos deixou.

Devo de ir, fadas
Inseto voa em cego sem direção
Eu bem te vi, nada
Ou fada borboleta, ou fada canção

As ilusões fartas
Da fada com varinha virei condão
Rabo de pipa, olho de vidro
Pra suportar uma costela de Adão

Um toque de sonhar sozinho
Te leva a qualquer direção
De flauta, remo ou moinho
De passo a passo passo…

Discografia de Luiz Melodia

1973 Pérola Negra
1976 Maravilhas Contemporâneas
1978 Mico de Circo
1980 Nós
1983 Felino
1987 Decisão
1988 Claro
1991 Pintando o Sete
1995 Relíquias
1997 14 Quilates
1999 Acústico ao Vivo
2001 Retrato do artista quando coisa
2003 Luiz Melodia Convida
2007 Estação Melodia
2008 Especial MTV – Estação Melodia Ao Vivo
2014 Zerima

Visite o site do artista: www.luizmelodia.com.br/

Ronaldo Cooper
Nasceu em Porto Alegre, é jornalista, roteirista, fotógrafo e editor do blog VisualZine.
visualzine.blogspot.com.br

 

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA