Hoje tem marmelada?

A fulana fugiu com o circo! Quando eu era criança, ouvia muito isso, não sabia quem eram as fulanas nem se era verdade, mas que eu achava aquilo a coisa mais doida do mundo, eu achava.

Fugir com o circo por quê? Porque se apaixonou pelo palhaço, porque quer ser equilibrista, porque quer salvar os leões da jaula? Eu não entendia o motivo.

Se antes eu imaginava que a fulana podia ter fugido pra livrar os leões e os macacos da jaula, hoje fico pensando que elas queriam era sair de suas jaulas. Meninas criadas em famílias rígidas, que queriam viver livremente, aproveitavam os mambembes pra ir embora de carona. Quantas voltaram, quantas viraram trapezistas, quantas fugiram com outros circos? Tantas histórias de vida.

Hoje, a gente não foge mais com o circo, mas vive fugindo disso e daquilo, especialmente de nós mesmos.

É melhor descobrir o circo que tem dentro de nós, onde tem marmelada, tem sim senhor, onde tem palhaçada, tem sim senhor. Dentro de nós tem o que a gente quiser, o que a gente permite que entre e fique.

Fujo pro meu circo todo dia e, a cada sessão, descubro uma coisa nova. A que descobri mais recentemente é que meu circo não tem jaulas, os animais são só de estimação e brincam comigo quando pinto minha cara de palhaço.

Célia Rennó
Jornalista, autora de 4 títulos da coleção Ludo Ludens, da Editora do Brasil, e gosta de pensar, falar e escrever sobre o comportamento humano e suas idiossincrasias. Trabalha com Educomunicação há alguns anos e nunca se aquieta. Está sempre inventando um jeito de se comunicar!

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