“Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí…” Quem nunca ouviu? Para escrever esse texto, busquei no Wikipedia sobre a história dessa musiquinha carnavalesca. Descobri que “foi composta em 1959 pelos irmãos Homero Ferreira, Renato Ferreira e Ivan Ferreira, e gravada por Moacyr Franco com o selo Copacabana em um compacto simples no mesmo ano, que vendeu, quase que imediatamente, 100 mil cópias. No ano seguinte, ela foi a música mais tocada do carnaval, tornando-se um clássico, e sendo repetida ano após ano pelos foliões.”

Todo mundo já ouviu a marchinha e também ouve quase sempre alguém nos pedindo dinheiro na rua. Parece que os tempos de vacas magras na economia fizeram aumentar a petição, infelizmente. Cenário triste e desolador. Mas estou falando isso para repercutir a fala do Papa Francisco que pretende, como ele mesmo diz, romper as fronteiras da Igreja Católica e atingir a todos, independente de ter ou não uma religião. Aliás, destaco esse caráter sempre presente na fala do Papa católico: ele quer chegar a todos os homens. E tem conseguido. Eu mesma não costumava me demorar em falas papais, como tenho feito com Francisco.

Sua mensagem valoriza uma antiga prática, a de dar esmolas. Diz ele: A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo, nunca é só meu. Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos! Como gostaria que, como cristãos, seguíssemos o exemplo dos Apóstolos e víssemos, na possibilidade de partilhar com os outros os nossos bens, um testemunho concreto da comunhão.

A fala do Papa vai na contramão daqueles que fazem campanhas pelo fim da esmola como se ela fosse responsável por quem julga os pedintes como adeptos de ‘vadiagem e vagabundagem’. Tem campanhas oficiais transformadas em bandeiras de órgãos de promoção social, que pretendem acabar com esse hábito de socorrer a fome do outro imediatamente, sob a alegação de que assim não se promove ninguém.

A velha ‘ensinar a pescar em vez de dar o peixe’ é muito utilizada em discursos atualmente, principalmente na boca daqueles que desqualificam programas sociais de governo. Discordo de que se tenha apenas que ensinar a pescar, assim como discordo de que se tenha apenas que dar o peixe. As duas coisas tem que ser feitas juntas, quando for possível.

Mas na impossibilidade, socorrer a fome é urgente, é imediato, ela não espera que as políticas sejam implementadas e comecem a dar resultados. A barriga ronca é agora, não é daqui a alguns anos, quando a cultura se transformar.

O dinheiro que a gente ganha suadamente pode ser dividido em três partes. Seja ele quanto for, pouco ou muito (até porque são totalmente subjetivas essas palavras), pode ser dividido assim: uma para uso com nossas necessidades e desejos, outra para guardar (não para doenças – porque senão elas vêm para fazer jus a nosso planejamento – mas para viagens, mimos extras…) e outra para ajudar quem precisa.

Precisa fazer milagre para ele render tanto? Talvez. A vida não anda fácil. Mas repito, seja quanto for, um, cinco, dez ou cem reais (cada um de acordo com o tamanho do seu bolso), dá para ser doado a quem precisa. É um ato de amor, de não-julgamento, de paz!

Célia Rennó
Jornalista, autora de 4 títulos da coleção Ludo Ludens, da Editora do Brasil, e gosta de pensar, falar e escrever sobre o comportamento humano e suas idiossincrasias. Trabalha com Educomunicação há alguns anos e nunca se aquieta. Está sempre inventando um jeito de se comunicar!

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