Atravessando o colapso em conexão com a vida.

Desde o ano passado, muitas tragédias atravessam as nossas vidas. Avanço de governos anti-progressistas, escalada de tensão entre regimes imperialistas, crises políticas em toda a América Latina, crimes ambientais no Brasil, gravíssimos incêndios na Austrália e Amazônia, aceleração das mudanças climáticas e recordes de calor — só para citar alguns.

Eventos de ordem política, social e ecológica continuamente nos tiram do aparente conforto individualista e evidenciam a nossa interdependência.

E agora uma pandemia — de alguma forma previsível, mas totalmente negligenciada — muda os nossos hábitos, nos faz suspender premissas nunca questionadas, corporificar princípios até então abstratos, experimentar emoções que tanto evitamos e confrontar verdades desconcertantes.

De repente, um mundo orientado pelo reducionismo, se vê obrigado ao olhar sistêmico e a abraçar a complexidade. O alcance global em tão pouco tempo da pandemia evidencia a limitação da fragmentação e da linearidade.

De repente, um mundo orientado pelo comando e controle se vê obrigado a colaborar e a compartilhar. A colaboração internacional é questão de vida ou morte não só de economias, mas de milhões de pessoas.

De repente, um mundo colonial orientado pela indiferença ao outro tem a sua desumanidade escancarada. Os desinvestimentos em serviços públicos têm seus efeitos evidenciados. E os privilégios de poucos se contrastam com as desvantagens de muitos.

De repente, um mundo orientado pelo crescimento econômico infinito se vê no limiar de uma crise econômica profunda. Conter danos se torna mais importante que crescer lucros.

De repente, um mundo orientado pelo “correr, produzir, consumir e descartar” se vê imobilizado. Não há para onde ir, não há por que nem o que consumir.

De repente, um mundo orientado pela conquista pessoal se vê assolado pela falência individual. Em cenário de tragédia coletiva, o auto-interesse se mistura completamente com responsabilidade social.

A parada, a introspecção e a reflexão que tanto relutamos em fazer quando estamos desesperados e correndo, de repente, é uma ordem.

Mas talvez isso não esteja acontecendo tão de repente assim.

Há décadas a insustentabilidade da civilização moderna e do capitalismo corporativo é conhecida. As fronteiras planetárias ultrapassadas, os índices crescentes de desigualdade social e a generalização de casos de suicídio há muito tempo nos convidam a parar e refletir sobre a nossa desconexão com a vida.

Mas desesperados e correndo não conseguimos mudar.

É curioso que a mudança precise tanto de um estímulo disruptivo quanto de calma interior. A necessidade de mudança é percebida através de algo que nos abale o suficiente para engajar a vontade na superação de pensamentos e comportamentos cristalizados. A concretização da mudança passa por um estado de relaxamento em que o estímulo é aceito e interiorizado. Se isso não acontece, continuamos lutando e fugindo como presas ameaçadas diante o convite da mudança.

Agora estamos desesperados e parados. A necessidade de mudança é percebida. E a interiorização é inevitável.

A metáfora da mãe que bota o filho pré-adolescente de castigo depois de um ato de irresponsabilidade parece muito apropriada. Parece mesmo que Gaia quer fazer parar os seus filhos adolescentes. E nos fazer rever rotas e princípios.

Mas antes de refazer nossas intenções e estabelecer novos hábitos, precisamos superar a resistência e a revolta com o castigo.

Antes de qualquer resposta, precisamos metabolizar a reação emocional frente ao caos global — seja ela de perda, tristeza, desespero, resignação, negação ou o que for. As emoções precisam de tempo para cumprir a sua função em nós. O luto merece ser vivido dignamente.

Essa é a condição que nos leva à calma interior de onde nascem respostas compassivas, inteligentes e criativas.

Juliana Diniz é cientista social com especialidade em Antropologia. É co-fundadora do Instituto de Desenvolvimento Regenerativo onde combina desenvolvimento humano, ecologia profunda e ativismo social através de cursos e vivências.
www.desenvolvimentoregenerativo.com julianamotadiniz@gmail.com

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