Por que será que para muitas pessoas, se entregar e assumir que não está dando conta de alguma tarefa é uma missão quase impossível? Meu Deus! Será que quando a gente veio ao mundo, pregaram no nosso bumbum um adesivo onde estava escrito: 100% de eficiência, qualidade total, não quebra, não cheira nem solta as tiras? Colocaram o adesivo e a gente acreditou, o que é pior.

Assumimos milhões de tarefas, corremos para dar conta de tudo e nos culpamos muito quando uma área fica incompleta. Mas é claro que algo não vai dar certo se a gente quiser assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. Ainda não inventaram um super herói. Aliás, se tivessem inventado, talvez ele soubesse até onde pode ir, onde deve dizer ‘não dá’. Caso contrário, ele não seria herói, seria um fazedor de mil tarefas que acabam todas saindo incompletas ou insatisfatórias.

É preciso aprender a dizer não. Não para os outros e para nós mesmos. Não, eu não posso assumir essa responsabilidade, não conte comigo para tal coisa porque já estou estourando o limite. Quantas vezes a gente tem coragem de dizer isso? Nossa cultura condena quando a pessoa diz não. Os bons samaritanos são aqueles que sempre dizem sim, não é? E o contrário, são os egoístas.

Mas é libertador quando a gente resolve cuidar um pouquinho de si mesmo, observar o que está passando do limite e abortar missão de algumas tarefas.

É como aquela velha história do bode no meio da sala. Talvez seja história só de mineiro, mas vale contar: um colono da fazenda reclamava pro patrão que a casa em que morava era muito apertada, que não cabia ninguém e que estavam todos infelizes lá. Daí, o patrão resolve colocar um bode bem no meio da já apertada sala. O empregado desentendeu de vez, achou um absurdo, mas enfim, acatou a ideia. E por ali ficou o bode um mês dentro da sala da família. Até que um belo dia, o patrão foi visitar a casa e levou o bode embora. Ah, que casa deliciosa, quanto espaço, que ar puro temos aqui, disseram todos da família, contentes da vida.

É mais ou menos isso que acontece quando a gente tira uns bodes de dentro de nossa sala. O dia corrido de 24 horas fica um dia enorme de 24 horas. Vale a pena fazer uma lista de todas as coisas que estão sob nossa responsabilidade e tomar a atitude de excluir as que podem ser descartadas sem que isso prejudique ninguém. Você verá que muita coisa poderá ser ejetada sem doer. Pode ser mais fácil do que a gente imagina. E se tiver medo de ter que dizer uns nãoszinhos, diga com medo mesmo.

Tire o bode do meio da sala!

Célia Rennó
Jornalista, autora de 4 títulos da coleção Ludo Ludens, da Editora do Brasil, e gosta de pensar, falar e escrever sobre o comportamento humano e suas idiossincrasias. Trabalha com Educomunicação há alguns anos e nunca se aquieta. Está sempre inventando um jeito de se comunicar!

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