Quer curtir música boa com base indiana e, quem sabe, experimentar um momento de meditação? Ouça Wonderwall Music! Com essa trilha sonora, George Harrison abriu novos caminhos para sua música e carreira.

Capa original do LP Wonderwall Music

Há 50 anos, George Harrison tirou uma folga da maior banda do planeta para criar a trilha sonora do filme Wonderwall, de Joe Massot e ainda inventou o conceito de música mundial ao reunir um Monkee, dois Beatles, Erick Clapton e a elite musical da Índia. Lançado em 1 de novembro de 1968, a trilha sonora foi o primeiro álbum solo de um Beatle e o primeiro álbum da gravadora Apple.

Relançado agora em vinil na série George Harrison: The Vinyl Collection, pela Universal Music, no Reino Unido, Wonderwall Music explora a sonoridade de cantos védicos, ragtime, country, raga e valsa, numa interessante colagem sonora. Também é uma expressão implícita de sua insatisfação dentro dos Beatles, talvez até uma indicação do começo do fim da banda de Liverpool.

Depois que o quarteto deixou de viajar, em agosto de 1966 Harrison passou seis semanas na Índia com Ravi Shankar, mergulhando em criações musicais e revelações espirituais. Os dias na Índia promoveram uma profunda compreensão da riqueza sonora da música indiana, extraída de instrumentos como shehnai, santoor, sarod, surbahar e tabla tarang. Ao retornar para Londres, ele percebeu quenão ficou plenamente satisfeito com sua contribuição no álbum Sgt Pepper’s. “Meu problema, basicamente, era que eu estava em outro mundo. Eu realmente não pertencia; Eu era apenas um apêndice”, diria ele mais tarde.

Aulas com o mestre indiano Ravi Shankar

O diretor americano Joe Massot precisava de música instrumental original para as muitas cenas sem diálogo do seu filme. Harrison não pensou duas vezes ao aceitar o convite para compor a trilha do psicodélico e sombrio Wonderwall. O filme é estrelado por Jane Birkin e Jack Macgoran. Ela interpreta uma modelo que envia seu vizinho esquisito para um frenesi voyeurista.

Temperado com sabores indianos, o álbum é uma mistura sedutora de paixões. Harrison estudou cada cena do filme, marcando onde a música seria inserida. As gravações iniciais foram feitas em Abbey Road em novembro de 1967, com o maestro Tommy Reilly e o quarteto Remo Four. “Nada estava realmente escrito. Conversávamos sobre ideias que ele queria, tocávamos alguma coisa, e ele dizia: Isso é bom, mantenha isso. Foi muito experimental. A ideia era criar uma atmosfera”, diz o baterista do Remo Four, Roy Dyke.

Poster do filme Wonderwall

Algumas faixas fluem com perfeição entre o exótico e adorável: a valsa de piano Red Lady Too; Wonderwall To Be Here, onde a melodia ondulante de piano do maestro Tony Ashton encontra as cordas do arranjador John Barham; o funk On the Bed, inspirado em uma parceria entre Barham e Shankar para o filme Alice no País das Maravilhas, de Jonathan Miller. Há ainda Dream Scene, uma mixagem de guitarra, falas de amor de Bollywood, flautas, harmônicas, pianos, sirenes, carrilhões de relógio e sinos de igreja. Ringo Starr coloca swing em Party Seacombe, enquanto um riff monstruoso de Clapton marca Ski-ing. No início de 1968, Harrison retornou à Índia para gravar ragas com Shambhu Das, Aashish Khan e muitos músicos locais. Um desses ragas é o mágico The Inner Light.

Gravação com músicos em Mumbai, Índia

A trilha de Wonderwall foi liberada antes da preimière do filme em Cannes, em novembro de 1968. O filme de Massot tornou-se uma curiosidade datada, mas a trilha sonora que abriu um novo rumo para a música de George Harrison continua fantástica. Você pode ouvir e salvar a trilha Wonderwall Music no Spotify.

 Ronaldo Cooper
Nasceu em Porto Alegre, em 1962. É jornalista, roteirista, fotógrafo e criador do blog VisualZine.

visualzine.blogspot.com.br