O New York Times relacionou Todos os Contos entre os melhores livros de 2015 e a colocou entre as 12 melhores capas. Isso tem uma razão. A antologia de Clarice Lispector, elaborada pelo biógrafo, escritor, editor, crítico e tradutor Benjamin Moser, foi editada primeiro nos Estados Unidos, recebendo o Pen Translation Prize, de melhor tradução.

Os 85 contos reunidos na antologia, mostram as diferentes fases da escritora, da adolescência até a maturidade. O livro inicia com os contos presentes em “Primeiras histórias”, escritos durante o período em que estudava Direito até o casamento com o diplomata Maury Gurgel Valente e a saída do Brasil. Veja o trecho inicial do seu primeiro conto “O triunfo”:

“O relógio bate 9 horas. Uma pancada alta, sonora, seguida de uma badalada suave, um eco. Depois, o silêncio. A clara mancha de sol se estende aos poucos pela relva do jardim. Vem subindo pelo muro vermelho da casa, fazendo brilhar a trepadeira em mil luzes de orvalho. Encontra uma abertura, a janela. Penetra. E apodera-se de repente do aposento, burlandoa vigilância da cortina leve.”

Clarice viveu no exterior por dezesseis anos. Foi um período triste e depressivo, mas importante para direcionar o processo criativo da escritora nascida na Ucrânia e radicada no Brasil desde 1922. Temas como casamento, filhos, tédio, separação, envelhecimento e solidão são marcam de sua obra literária.

Na época do nascimento da judia menina Chaya Pinkhasovna Lispector, a Ucrânia vivia uma época de caos, fome e guerra racial. Na cidade natal, Chechelnyk, o avô foi assassinado, a mãe violentada e pai exilado, para o outro lado do mundo. Em Alagoas, quando Clarice ainda não tinha completado nove anos de idade, perdeu a mãe que sofria de sífilis.

Em 1940, publicou o primeiro conto: “O triunfo” e três meses depois, o pai falece. No início de 1943, Clarice se casa e ela e o marido deixam o Rio de Janeiro rumo ao exterior. O primeiro destino foi Nápoles, na Itália, onde conhece e tem um retrato pintado pelo surrealista Giorgio de Chirico, e depois Berna, na Suíça, e mais tarde em Washington, capital norte-americana.

Na antologia publicada pela editora Rocco, após o primeiro capítulo com os textos da juventude, são apresentados os contos publicados originalmente nos livros: “Laços de família” (1960), “A legião estrangeira” (1964), “Felicidade clandestina” (1975), “Onde estivestes de noite” (1974), “A via crucis do corpo” (1974) e “Visão do esplendor” (1975). Encerram a edição dois contos incompletos publicados em “A bela e a fera” (1979), dois anos depois da morte da autora em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57° aniversário.

É sempre bom ler Clarice Lispector porque seus textos revelam emoções, descobertas e sentimentos como o desejo, amor, inquietude, solidão. Ler Clarice é como descobrir a vida. E Todos os Contos nos aproxima mais uma vez dessa escritora fascinante.

TODOS OS CONTOS
Clarice Lispector
R$ 45,20

Ronaldo Cooper
Nasceu em Porto Alegre, é jornalista, roteirista, fotógrafo e editor do blog VisualZine.
visualzine.blogspot.com.br

 

 

 

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