Quando eu era criança, no Dia de Finados, as rádios só tocavam música sacra e uma boa gargalhada, brigas com os irmão e palavrões estavam totalmente fora de cogitação e longe da absolvição e perdão divinos. Nem a televisão podia ser ligada. As tias, sempre tagarelas e faceiras, falavam baixinho e mantinham um ar de seriedade. Lembro que era um dia cheio de melancolia e silêncio.

Hoje em dia, aquele antigo clima de introspecção diminuiu e a data se caracteriza pela visita aos cemitério. Os túmulos dos parentes falecidos são visitados, recebem flores e são feitas orações. Também são realizadas missas em honra daqueles que já se foram.

Cada país celebra a lembrança dos seus mortos de maneira diversa. Dependendo da cultura, a data pode ganhar características festivas ou ser encarado como um momento de saudade e reflexão. Vamos ver como são feitas as celebrações da data em alguns países.

O México é o país onde são realizadas as festas mais animadas e coloridas para homenagear a memória dos mortos. Os rituais que celebram a vida dos ancestrais já eram realizados nas civilizações pré-colombianas pelo menos há três mil anos.

Conhecida como Dia de Los Muertos, a celebração acontece entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro. Para a ocasião, são montados altares dentro das casas e preparadas comidas e bebidas preferidas dos parentes falecidos. O feriado é encarado como uma data alegre, para celebrar e relembrar com orgulho as memórias de quem já se foi.

As pessoas usam fantasias coloridas, usam máscaras ou pintam caveiras no rosto. Há muita música nas ruas e até mesmo nos cemitérios. E as cores vibrantes em enfeites são usadas na decoração das casas e ruas. Em 2003, a UNESCO declarou a festividade como Obra Mestra do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade.

Os espanhóis comemoram a data como Dia de Todos Los Santos, que acontece em 1º de novembro também em um clima festivo. Sendo um feriado nacional, as pessoas retornam para suas cidades natais para visitar e colocar flores nos túmulos de seus entes queridos. Um doce especial chamado Hueso de Santos – Osso dos Santos-, feito de marzipã, ovos e calda açucarada, é comido como sobremesa especial da data.

Durante o dia, as cidades espanholas recebem paradas em honra aos mortos. Os espanhóis também usam roupas de tons coloridos e vibrantes. Uma tradição que se repete é a apresentação da peça romântica Don Juan Tenório.

Em Portugal, a data é conhecida por Dia dos Fiéis Defuntos, e assim como no Brasil, é dia de relembrar os entes queridos de uma maneira mais introspectiva. Neste dia, os portugueses vão aos cemitérios e às igrejas para rezar pelos pecados das pessoas que morreram. As crianças recebem presentes que podem ser doces e brinquedos.

Os tiroleses da Áustria, deixam bolos sobre a mesa e a sala em cada casa é mantida quente para o conforto dos mortos. A data é celebrada na República Tcheca com o uso de máscaras, o acender de velas e consumo de caveiras de açúcar.
Na Grã-Bretanha, as pessoas vão aos cemitérios ao anoitecer, ajoelham-se em frente às lápides de seus parentes falecidos, e ungem-nas com água benta ou leite. O jantar é deixado na mesa para as almas se servirem.

No dia 31 de outubro nos Estados Unidos acontece o Halloween – Dia das Bruxas, e a origem dessa comemoração aconteceu com os celtas, através das festividades pagãs do fim do período de verão e início do inverno, o Festival de Samhain. Acreditava-se que nesta data, os espíritos dos mortos regressavam para visitar suas casas e também poderiam surgir assombrações para amaldiçoar os animais e as colheitas. Todos os símbolos utilizados pelos celtas tinham como objetivo afastar os maus espíritos.

A tradição do Halloween foi levada pelos imigrantes irlandeses para os Estados Unidos, onde a festa é comemorada com entusiasmo e seus símbolos principais são as fantasias e a abóbora decorada com feições humanas e iluminada com uma vela. Também há o costume de distribuir doces para as crianças fantasiadas, o conhecido Trick or treat – Gostosuras ou travessuras.

Atualemente, a popularidade do Halloween é maior em países de língua anglo-saxônica, mas se espalha pelo mundo. O evento acontece na véspera do feriado religioso do All Saints Day – Dia de Todos os Santos, o verdadeiro Dia de Finados. É um dia de orações pelos mortos. Muitos cristãos visitam os cemitérios onde acendem velas nos túmulos de seus antepassados. As velas são abençoadas e marcadas com os nomes dos falecidos.

A imigração mexicana levou também para os Estados Unidos as comemorações são mais parecidas com Dia de Los Muertos, com festas e celebrações alegres.

Na Guatemala, o Dia de Los Muertos é marcado pela montagem e uso cerimonial de pipas gigantes, ricamente decoradas. Também são feitas visitas aos túmulos dos ancestrais e a comida típica do dia é o fiambre, único dia em que é preparada essa comida durante o ano.

No Haiti, as comemorações atravessam a noite, com barulhentos tambores e música pelos cemitérios para acordar o Baron Samedi, o senhor dos mortos, e seu descendente, o Gede.

No dia 9 de novembro, a Bolívia comemora o Dia de los Ñatitas. Nos tempos pré-colombianos, indígenas andinos tinham o costume de partilhar um dia com os ossos de seus familiares mortos, no terceiro ano após seu sepultamento.

Hoje em dia usa-se apenas o crânio dos mortos para essa celebração. No dia, a família coroa a caveira com flores frescas, oferecendo cigarros, folhas de coca, álcool e outros itens em agradecimento à proteção durante o ano. Depois, as caveiras são levadas para os cemitérios, para uma missa especial e bençãos.

Em algumas culturas da África, visitas às tumbas dos ancestrais deixando comidas, presentes e pedindo por proteção fazem parte de importantes rituais tradicionais.

Nas Filipinas, a celebração chamada de Undas guarda alguma semelhança com a que acontece no México. As famílias acampam no cemitério, limpam e pintam as tumbas, acendem velas e oferecem flores. Enquanto permanecem nos cemitérios, os familiares dos mortos jogam cartas, fazem comidas, bebem, cantam e dançam.

Na Coreia do Sul, o Chuseok, também conhecido como Hankawi, é um dos principais feriados. As pessoas vão para onde os espíritos de seus ancestrais estão consagrados e fazem cultos pela manhã, visitam as tumbas para podar as plantas, limpam a área ao redor e fazem ofertas de comidas e bebidas aos mortos.

Os japoneses celebram o Bon Odori, festival budista com origem no Urabon’e – Festival dos Fantasmas – e realizado em honra aos ancestrais mortos, sempre após o pôr do sol, pois existe a crença de que os espíritos somente saem durante a noite.

Além de cerimônias religiosas em templos, desfiles iluminados por lanternas e da apresentação de danças e músicas tradicionais, o festival se tornou uma oportunidade para a reunião familiar para visitar e limpar as sepulturas de seus ancestrais. A celebração acontece entre os meses de julho e agosto e já existe no Japão por mais de 500 anos.

Na China há três datas de comemoração. O primeiro deles é o Festival de Qing Ming, que acontece normalmente no início de abril. Pela tradição chinesa, o sétimo mês no calendário é chamado de mês fantasma no qual os fantasmas e espíritos saem do além para visitar a terra.

Há também o Chung Yeung Festival, também conhecido como o Festival do Crisântemo, que acontece no nono dia do nono mês do calendário chinês, comemorado a mais de dois mil anos. Essa é a data em que os chineses cuidam dos túmulos de seus ancestrais. As pessoas sobem montanhas e bebem líquor de crisântemo para ganhar proteção contra perigos.

Durante o colorido e festivo feriado Gai Jatra, conhecido como o Festival da Vaca, toda família do Nepal que perdeu um membro durante o ano anterior faz uma construção de bambus, panos, papéis decorativos e retratos dos falecidos.

Tradicionalmente, uma vaca viva ou uma réplica, são usadas para guiar o espírito do morto no outro mundo. O festival também é a época de se usar fantasias e realizar manifestos políticos ou satíricos.

E por fim a Tailândia, nosso último país de onde destaco o Phi Ta Khon, conhecido como Festival Fantasma, o nome para um grupo de festivais realizados em Dan Sai, província de Loei. Os eventos acontecem durante três dias, entre março e julho. Todo o evento é chamado Bun Luang, parte de um feriado budista.

O primeiro dia é o próprio Festival Fantasma. Os moradores da cidade chamam a proteção de Phra U-pakut, o espírito do rio Mun. Eles realizam uma série de jogos e participam de uma procissão com máscaras feitas de cascas de arroz e folhas de coco, além de roupas coloridas de patchwork.

As origens desta parte do festival são tradicionalmente atribuídas a uma história da Vessantara Jataka em que o Buda, em um dos seus tempos de vida, como um príncipe fez uma longa jornada e foi presumido morto. As celebrações em seu retorno eram tão estridentes quanto a despertar os mortos.

O segundo dia do festival incorpora desfiles, apresentações de música, além de concursos de dança e fantasia. E no terceiro e último dia, os aldeões ouvem sermões de monges budistas.

Ronaldo Cooper
Nasceu em Porto Alegre, é jornalista, roteirista, fotógrafo e editor do blog VisualZine.
visualzine.blogspot.com.br

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