Hoje, como tenho feito todos os dias, passei alguns minutos regando uma horta. Quer coisa mais linda que isso? Dar água para quem vai nos alimentar em breve. Uma atitude singela, simples, mas de um enorme valor. Tão simples que a gente nem a percebe, mesmo quando está fazendo.

Enquanto eu matava a sede das alfaces e dos rabanetes, eu pensava em um monte de coisas: nos problemas que tinha para resolver, em como seria o dia de amanhã, nas pendências que estão me preocupando, enfim, estava pensando em tudo, menos naquilo que eu estava fazendo na hora.

E é assim que acontece com quase tudo. A gente pensa, ressente, preocupa, planeja, sofre enquanto está fazendo pequenos afazeres, por mais agradáveis que eles sejam. Não sobra tempo para curtir aquilo que se está fazendo no tempo real. O agora é como se não existisse porque todo o foco está voltado para o ontem ou para o amanhã. Daí, o tal tempo passa, a gente chega no amanhã e continua pensando no ontem e no depois.

Tomar um bom banho, deitar-se numa cama quentinha, olhar uma paisagem, caminhar pela rua, fazer um café, lavar a louça para que a casa fique limpa e organizada … pequenas ações que a gente faz mecanicamente com a cabeça lá do outro lado do tempo. Por que será? Por que é tão difícil aproveitar esses singelos momentos?

Por outro lado, quando os momentos são de dor e sofrimento, a gente se concentra neles e vai até o fundo do poço. Quando perdemos alguém, a dor parece que toma conta de tudo, que a gente nem lembra que houve ontem e que haverá amanhã e se rasga de dor, vivendo intensamente aquela momento de perda. Isso acontece com tudo o que nos é ruim e doloroso. E ainda temos a mania de esticar aquela dor o máximo possível, falar sobre ela, chorar, curtir até ficar sem força.

Nesses momentos difíceis, parece até que o tempo para. Não conseguimos nos concentrar em nada que não seja aquela sofrência. Nossa atenção se volta toda para o agora dolorido e difícil de atravessar.

Acho que deve mesmo ser assim, que temos que ‘nos entregar’ à dor (ops, será que você me entende com esse ‘nos entregar’?), vivê-la sem fingir que não se está sentindo, não represá-la. É como se a gente gastasse toda a dor, sem guardar nada para depois. O que sobra pode ser saudade, compreensão, entendimento, esperança, qualquer coisa boa, mas não dor.

Da mesma forma, deveríamos nos entregar às coisas boas do agora, vivê-las intensamente, esticá-las ao máximo, rir, falar sobre ela, aumentar seu efeito, curtir até…. até a próxima alegria.

E essa alegria não precisa ser extraordinária. Pode ser aquela de dar água para os alfaces e os rabanetes.

Célia Rennó
Jornalista, autora de 4 títulos da coleção Ludo Ludens, da Editora do Brasil, e gosta de pensar, falar e escrever sobre o comportamento humano e suas idiossincrasias. Trabalha com Educomunicação há alguns anos e nunca se aquieta. Está sempre inventando um jeito de se comunicar!

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